Pedro Abramovay chegou a responder interinamente pelo Ministério da Justiça no governo Lula, aos 30 anos de idade. Foto: Marcello Casal/ABr
O ex-secretário do Ministério da Justiça Pedro Abramovay criticou hoje (5), em artigo publicado pela Folha de S. Paulo, a ofensiva judicial de 43 servidores do Senado contra o Congresso em Foco por causa da divulgação de seus salários. Ex-titular da Secretaria Nacional de Justiça e da Secretaria de Assuntos Legislativos, Abramovay argumentou que os vencimentos dos servidores públicos não podem ser secretos devido à natureza pública da atividade.
Ele lembrou que o próprio STF já se posicionou sobre questão semelhante, quando manteve a divulgação de salários de funcionários da prefeitura de São Paulo há poucos anos. ”É o preço que se paga por uma carreira pública no seio de um Estado Republicano”, pontuou o ministro Ayres Britto em sua decisão à época.
Na avaliação de Abramovay, esse tipo de questionamento deixará de existir com a regulamentação da recém-sancionada Lei de Acesso à Informação ( leia a íntegra ), que diz que todas as informações que não afetem a segurança do Estado devem ser públicas. “Espera-se que, na regulamentação, fique claro que os salários dos servidores devem ser divulgados.”
Segundo o ex-secretário, a resposta na Justiça por eventuais danos não pode ameaçar a liberdade de imprensa. Ele destacou que o custo para o site montar uma estrutura jurídica para se defender de cada uma das ações pode inviabilizar a existência do próprio veículo. “No Brasil, não há censura prévia, mas os órgãos de imprensa respondem pelos danos que causarem. É um bom princípio. Mas isso não pode inviabilizar a divulgação de dados de interesse público”, observa Abramovay.
Leia o artigo publicado pelo ex-secretário na Folha de S. Paulo:
“Resposta por eventuais danos não pode ameaçar a liberdade
PEDRO ABRAMOVAY
ESPECIAL PARA A FOLHA
A lista dos servidores do Senado que ganham mais do que um ministro do Supremo Tribunal Federal, divulgada pelo site Congresso em Foco, é informação de importante relevância pública.
Dezenas de funcionários que tiveram seus nomes divulgados entraram cada um com uma ação contra o site.
Há duas questões a serem analisadas. A primeira é o fato de que o custo para o site de montar uma estrutura jurídica para responder a cada uma dessas ações pode inviabilizar sua própria existência.
No Brasil, não há censura prévia, mas os órgãos de imprensa respondem pelos danos que causarem. É um bom princípio. Mas isso não pode inviabilizar a divulgação de dados de interesse público.
Principalmente porque com a internet a difusão de informação não ocorre só por empresas com grandes departamentos jurídicos. Se aceitarmos um modelo que cria um enorme risco jurídico para a divulgação de dados, estaremos enfraquecendo a liberdade de imprensa.
Mas há um ponto ainda mais sério. É possível imaginar que salários de servidores devam ser secretos?
Alega-se que a divulgação viola a intimidade. Ora, os beneficiários dos programas sociais do governo têm seu nome divulgado publicamente.
O Supremo já enfrentou esta questão. Servidores do município de São Paulo tentaram derrubar um decreto que obriga a divulgação de todos os salários na cidade.
Disse o ministro Ayres Britto em seu voto – que manteve a divulgação – que esse “é o preço que se paga por uma carreira pública no seio de um Estado Republicano”.
Recentemente, foi aprovada a Lei de Acesso à Informação, que diz que todas as informações que não afetem a segurança do Estado devem ser públicas. Espera-se que, na regulamentação, fique claro que os salários dos servidores devem ser divulgados.
Assim, o site não correrá mais riscos, pois os dados divulgados serão, oficialmente, públicos.
Pedro Abramovay é professor da Escola de Direito da FGV Direito Rio”.
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