ISSN 2177-028X
A
A
A
A Evolução do Pensamento de Michel Foucault
FOUCAULT nasceu em Poitiers (França), em 1926, e morreu vítima da Aids em 1984. Estudou com Jean HYPPOLITE, cujas aulas sobre HEGEL fizeram dele um aluno admirado e brilhante. O hegelianismo marcava a maioria dos pensadores influentes da década de 50, entre eles Merleau PONTY e SARTRE, porque possibilitava uma leitura do marxismo, de NIETZSCHE e de toda a fenomenologia alemã.
Michel FOUCAULT foi um pensador de nossa época, um historiador do presente. Para tal, dispensou a categoria cômoda de uma história contínua, progressiva, dialética, nos moldes hegelianos, e ficou com a das forças violentas, mesquinhas, pequenas e nada brilhantes das lutas e confrontos. Inspiração nietzscheana para uma arqueogenealogia do sujeito.
Ao longo da história, a categoria “sujeito” aparece quando certas condições do saber sofrem modificações, possibilitando que o homem seja conhecido. O genealogista relaciona essas condições epistemológicas com as demais práticas sociais, institucionais e técnicas, para mostrar que não há saber que não produza poder.
O tema central em FOUCAULT, mais interessante e produtivo, é o sujeito constituído por práticas que possibilitam pensá-lo: práticas científico-disciplinares que o objetivam e práticas subjetivantes que permitem o auto-conhecimento. O seu pensamento representa uma alternativa bastante fecunda com relação às ainda remanescentes filosofias do sujeito (marxismo, fenomenologia, existencialismo), que tem a pretensão de dizer o que é o homem e que o sujeito é fundador desse conhecimento. Esse sujeito de estilo fenomenológico, não dá conta da linguagem, nem do inconsciente e muito menos do que o sujeito é constituído, e a racionalidade, ela própria, tem uma história.
Sua linha de pensamento é contextualista, pois pretende somente analisar as interpretações que se tem feito ao longo da história e que resultaram no sujeito que hoje se conhece.
FOUCAULT inspirou-se em vários pensadores mas, dentre todos, encontrou em NIETZSCHE sua Beatriz. Como Beatriz guia Dante na Divina Comédia, a obra de Friederich NIETZSCHE (especialmente os textos que escreveu quase à beira da loucura) foi para FOUCAULT uma iluminação. Quase como nenhum dos especialistas em NIETZSCHE, ele soube ver no autor do Nascimento da Tragédia tanto o poeta quanto o filósofo, o artista quanto o pensador. Para FOUCAULT (como para NIETZSCHE) a forma, os tons poéticos que percorrem sua escritura e o apelo ao aforismo nunca foram questões secundárias.
NIETZSCHE também lhe permitiu sentir-se mais seguro para elaborar seu ponto de vista singular. Como costuma acontecer com muitos jovens que se sentem incômodos em função de sua posição de estranho às normas e aos estilos que definem o grupo a que “pertence”, também para FOUCAULT as obras de NIETZSCHE revelaram o poder e o gozo de ser diferente. Estas obras foram o seu guia e sua sustentação, ajudou-o a compreender que ter um ponto de vista original não era um pecado pelo qual se devesse pagar caro. Há um par de aforismos nietzscheanos que o acompanharam por toda a vida quase como mantras para uma meditação pessoal.
Entre as influências que o próprio FOUCAULT considerou essenciais para sua formação destacam-se Martin HEIDEGGER, um dos poucos filósofos que fundou grande parte de sua reflexão sobre a poesia, e Jean-Paul SARTRE (com quem se enfrentou mais de uma vez e de uma maneira tão dura, que levou muito tempo para reconhecer a dívida que tinha com sua obra), cujas obras literárias apreciava sem discussão.
O ponto de vista original que caracteriza a indagação foucaultiana, seu olhar pouco habitual no mundo do pensamento é, contudo, freqüente no universo da literatura. Poder-se-ia dizer que é o mais literário dos filósofos e o mais filosófico dos escritores. Muitas de suas referências “teóricas” são literárias. Não é acidental, por exemplo, que no começo de As palavras e as coisas (1), diga que a pesquisa deste livro que o impulsionou à fama (inclusive à popularidade) nasceu de um fragmento de um dos ensaios de Jorge Luis BORGES que se encontra em Outras inquisições: “O idioma analítico de John Wilkins” (BORGES era um mestre na difícil arte de expressar idéias extremamente complexas e perigosas mediante paradoxos brilhantes e sutilezas estilísticas).
O seu estilo é literário, desde a inclusão de multinarrações que são essenciais para o desenvolvimento do argumento até o trabalho com a escritura (uma escritura que abunda em metáforas, que apela a transformar muitas de suas frases em epigramas, quase em versos, e seus parágrafos em aforismos), fazem deste filósofo um escritor, antes de um pensador. O menino que decidiu ser professor de história transformou-se em um dos escritores que mais profundamente refletiu sobre a história, um poeta do pensamento e um narrador teórico.
BIBLIOGRAFIA
ARAUJO, Inês Lacerda. Foucault e a crítica do sujeito . Curitiba: UFPR, 2000.
CHAUÍ, Marilena. Convite à filosofia . 12º ed. São Paulo: Ática, 2001.
FONSECA, Marcio Alves da. Michel Foucault e o direito . São Paulo: Max Limonad, 2002.
EWALD, François. Foucault, um pensamento sem compromissos . Lisboa: Veja, 1993.
FOUCAULT, Michel. As palavras e as coisas . 6º ed. São Paulo: Martins Fontes, 1992.
FOUCAULT, Michel. História da Sexualidade 1: A Vontade de Saber . 11º ed. Rio de Janeiro: Graal, 1993.
FOUCAULT, Michel. História da Sexualidade 2: O Uso dos Prazeres . 7º ed. Rio de Janeiro: Graal, 1994.
FOUCAULT, Michel. História da Sexualidade 3: O cuidado de si . Rio de Janeiro: Graal, 1985.
FOUCAULT, Michel. Vigiar e punir: História da violência nas prisões . 5º ed. Petrópolis: Vozes, 1987.
FOUCAULT, Michel. História da loucura na idade clássica . São Paulo: Perspectiva, 1978.
FOUCAULT, Michel. O nascimento da clínica . 2º ed. Rio de janeiro: Forense Universitária, 1980.
FOUCAULT, Michel. A verdade e as formas jurídicas . Cadernos da PUC/RJ. Rio de Janeiro, no 16, 1979.
FOUCAULT, Michel. Microfísica do poder: sobre a justiça popular . 7º ed. Rio de Janeiro: Graal, 1988.
FOUCAULT, Michel. Microfísica do poder: soberania e disciplina . 9º ed. Rio de Janeiro: Graal, 1990.
LUCKESI, Cipriano Carlos; PASSOS, Elizete Silva . Introdução à filosofia . 2º ed. São Paulo: Cortez, 1996.
FOUCAULT, Michel. Soberania e Disciplina . (1976). In: Microfísica do poder. Roberto Machado (Org. e trad.) 9º ed. Rio de Janeiro: Graal, 1990.
Notas:
1. FOUCAULT, Michel. As palavras e as coisas . 6º ed. São Paulo: Martins Fontes, 1992.
Texto confeccionado por
(1)Rosicler R. Santos
Atuações e qualificações
(1)Advogada, Especialista em Direito Eleitoral pela Academia Brasileira de Direito Constitucional e em Direito Administrativo pelo Instituto de Direito Romeu Felipe Bacellar.
Bibliografia:
SANTOS, Rosicler R.. A Evolução do Pensamento de Michel Foucault. Universo Jurídico, Juiz de Fora, ano XI, 30 de out. de 2007.
Disponivel em: < http://uj.novaprolink.com.br/doutrina/4519/A_Evolucao_do_Pensamento_de_Michel_Foucault >. Acesso em: 08 de fev. de 2012.
A
A
A